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Mucocele biliar em cães e gatos

Entenda o que é a mucocele biliar em cães e gatos, seu diagnóstico e tratamentos disponíveis para otimizar o seu atendimento veterinário e a condução de cada paciente.

Publicado em 09 de janeiro, 2026
Médico-veterinário realizando exame de ultrassonografia em cachorro com mucocele biliar.

O que é mucocele biliar

A mucocele biliar (MB) é atualmente muito prevalente e uma das doenças da vesícula biliar (VB) mais importantes, devido à sua alta morbidade e mortalidade em cães. Em gatos, é descrita muito raramente. A doença é relativamente nova, aumentando sua incidência a partir dos anos 2000. A razão da alta prevalência atual é desconhecida, porém, o emprego mais rotineiro da ultrassonografia abdominal pode ter favorecido o diagnóstico, mas isoladamente não explica o aumento da prevalência1.

A MB está entre as doenças de maior destaque da VB sendo causa frequente de obstrução biliar extra-hepática, distensão grave da VB com ruptura e extrusão do conteúdo biliar para a cavidade abdominal, peritonite biliar, síndrome da resposta inflamatória sistêmica, sepse, pancreatite, falência de múltiplos órgãos e óbito1,5.

É uma doença prevalente em cães de meia idade a idosos e caracteriza-se pelo acúmulo atípico de bile espessa semissólida com muco em excesso, levando a distensão progressiva da VB com risco aumentado de evoluir para pontos de necrose na parede e ruptura.  O presente artigo abordará recentes atualizações sobre etiopatogenia, apresentação clínica, diagnóstico e tratamento da mucocele biliar7.

Etiopatogenia

Não há uma causa bem estabelecida para a MB, entretanto aspectos genéticos raciais e endocrinopatias apresentam forte correlação com a doença. Ocorre mais comumente em cães idosos. As raças pequenas são mais acometidas. Raças como Spitz alemão, Schnauzer, Pastor de Shetland, Chihuahua e Cocker spaniel inglês são consideradas de maior predisposição1,5.

Estudos identificaram que a formação de mucocele está associada à secreção excessiva de MUC5AC e MUC5AB, que são subtipos de mucina formadora de gel que não conseguem se hidratar e têm dificuldade de dispersão e solubilização, contribuindo para a formação de um emaranhado de proteínas que torna a bile mais viscosa e acumula-se na vesícula biliar1. Esta observação lembra muito as propriedades do muco no contexto da fibrose cística em humanos, onde há uma falha em manter a composição fluida, iônica e ácido-base da superfície da mucosa. A razão exata desta falha é desconhecida1.

As doenças endócrinas são fatores predisponentes para a formação da mucocele, dentre elas o hipercortisolismo e o hipotireoidismo. O hipercortisolismo aumenta a chance de mucocele em 29 vezes e o hipotireoidismo 3 vezes mais.  No hipercortisolismo a hipótese da mudança de composição dos ácidos biliares hidrofílicos em hidrofóbicos pode atuar como um estímulo maior para a hipersecreção de mucina pelo epitélio vesicular. O efeito imunossupressor do cortisol aumentado pode favorecer infecções em vias biliares como a colecistite. Presença de bactérias é relatada em torno de 20% dos casos. No hipotireoidismo em humanos, pode ter relação com o tônus do esfíncter de oddi. A tiroxina estimula o relaxamento do esfíncter e sua diminuição aumenta o tônus, favorecendo colestase e consequentemente mais estímulo para produção de mucina5.  

As dislipidemias com aumento do colesterol associadas a endocrinopatias ou secundárias a dieta rica em gorduras ou dislipidemias primárias podem favorecer formação de mucocele. O excesso de colesterol na bile e maior concentração de ácidos biliares hidrofóbicos pode ser um fator irritante para a mucosa e predispor esta condição. A hipertrigliceridemia em schnauzers foi associada a hipomotilidade da VB e maior probabilidade de MB1,7.

A deficiência de vitamina D3 foi relacionada com a MB. Achados revelam que cães com mucocele biliar expressam concentrações séricas significativamente mais baixas de vitamina D do que cães saudáveis. Entretanto, a relação dos baixos níveis desta vitamina com a MB é incerta3.

Um estudo relatou que cães pastores de shetland tratados com imidacloprida eram 9,3 vezes mais propensos a terem MB5.

A colecistite bacteriana e obstruções parciais do ducto cístico por cálculos, estenoses por neoplasia ou pólipos são causas de MB em seres humanos5.

Finalmente, a formação de lama biliar, achado comum em animais idosos provavelmente associado a hipomotilidade da vesícula biliar com redução da fração de ejeção pós-prandial, contribui para estase biliar, irritação da mucosa e pode favorecer a progressão para mucocele1,5.

Na verdade, não existe um fator único conhecido como causa de MB e sim fatores predisponentes como os citados acima.

Apresentação clínica e diagnóstico

Os sinais clínicos dependem da presença ou não de complicações como obstrução biliar total ou parcial extra-hepática, ruptura da VB e peritonite. Muitas vezes, são pacientes assintomáticos ou com sinais inespecíficos que passam por ultrassonografia abdominal e acabam identificando a MB de forma incidental. Os sinais mais comuns quando presentes são os de letargia, anorexia, vômitos e icterícia e dor abdominal em uma menor parcela dos casos, porém são os mais graves e com maior probabilidade de mortalidade7.

Os achados laboratoriais mais frequentemente encontrados são a hiperbilirrubinemia, hipercolestorelemia, hipertrigliceridemia, aumento das enzimas hepáticas, principalmente fosfatase alcalina e GGT. Leucocitose com neutrofilia e desvio a esquerda é encontrado nos casos mais complicados5.

A ultrassonografia abdominal é fundamental para o diagnóstico. Os achados típicos revelam VB distendida preenchida por material luminal imóvel hiperecóico com padrão estrelar estriado, lembrando a fruta Kiwi partida circundada por camada hipoecoica adjacente a parede mucosa representando possível hiperplasia mucinosa cística. Pela imagem ultrassonográfica, a MB é classificada em 6 estágios de graus 1 a 6.

  • Grau 1 representa a bile ecogênica imóvel;
  • Grau 2 é o início do padrão estrelar;
  • Grau 3 é o padrão estrelar completo;
  • Grau 4 mistura o padrão estrelar com aspecto de kiwi;
  • Grau 5 lembra a formação e organização do kiwi;
  • Grau 6 apresenta aspecto clássico semelhante ao kiwi partido.

Entretanto, estes graus não necessariamente se correlacionam com as manifestações clínicas e gravidade2,4,5.

A ultrassonografia abdominal é o método de eleição para o diagnóstico de MB, porém é pouco sensível para detectar ruptura da VB. Nos casos de ruptura da VB, o líquido livre no abdômen deve ser coletado para análise. A mensuração de bilirrubina no líquido peritoneal maior que a concentração plasmática sugere ruptura da VB, de forma análoga a concentração de ureia e creatinina no líquido peritoneal em casos de uroperitônio2,4,5.

Ainda na ultrassonografia, pode ser calculada a fração de ejeção da VB, que consiste em determinar o seu volume após jejum de 12 horas e, na sequência, uma e duas horas após a alimentação. A hipomotilidade favorece a formação de lama e pode favorecer a MB. O aumento do tempo de contato dos sais biliares, principalmente hidrofóbicos, diretamente com a mucosa estimula a secreção de muco por meio da hiperplasia das células mucosecretoras da mucosa, processo conhecido como hiperplasia mucinosa cística e importante na formação da MB1,4.

Tratamento da mucocele biliar

O tratamento definitivo da MB é cirúrgico pela técnica de colecistectomia. Tanto humanos como animais se adaptam relativamente bem sem a VB. A cirurgia consiste em ligar o ducto cístico e retirar a VB inteira, realizando o descolamento da porção aderida ao parênquima hepático. Esse é um processo de dificuldade na cirurgia e risco de complicações com hemorragias e ruptura da VB. A cirurgia pode ser realizada por laparotomia aberta convencional ou pela técnica de videolaparoscopia de forma menos invasiva e com recuperação mais rápida do paciente no pós-operatório1,7.

Existe risco de mortalidade mais acentuado nos primeiros 14 dias de pós-cirúrgico. As taxas de mortalidade variam de aproximadamente 5 % a 23% e se relacionam fortemente com condição pré-cirúrgica do paciente.  Os animais sintomáticos com icterícia, vômitos, obstrução biliar extra-hepática, ruptura e peritonite biliar são os que terão maiores chances de desenvolver complicações cirúrgicas e óbito. Portanto, é importante enfatizar que o tratamento cirúrgico com profissional capacitado seja realizado antes do paciente se tornar sintomático. Nessa situação, o prognóstico a longo prazo é melhor1,7.

O tratamento não cirúrgico da MB é incerto. Um estudo avaliou 33 cães com tratamento clínico e estes animais tiveram sobrevida média de 1300 dias em comparação aos que realizaram tratamento cirúrgico, com média de sobrevida maior, de 1802 dias1.

Há poucos relatos de resolução de MB com tratamento clínico. Geralmente, são utilizadas combinações de dietas com menor teor de gordura, ácido ursodexoxicólico, S-adenosilmetionina (SAMe), silimarina, ácidos graxos ômega 3 e antibioticoterapia em casos de colecistite. Tratar a doença de base pode trazer benefícios e, no caso de hipotireoidismo, há relato de dois casos com resolução completa da MB após tratamento com a levotiroxina6 e de resolução parcial em 4 de 15 cães com hipercortisolismo após 6 meses de tratamento com o trilostano1,5.

O manejo nutricional é importante no contexto da MB, considerando principalmente o papel da hipercolestorelemia. Nesse sentido, dietas com baixo teor de gordura ou ricas em fibras são as mais indicadas, sobretudo em pacientes com síndrome metabólica, endocrinopatias e obesidade. Para situações não responsivas a dieta, indica-se a suplementação de ácidos graxos ômega 3 e fármacos antilipemiantes, como os fibratos na hipertrigliceridemia (ex: bezafibrato 2,5 a 5 mg/kg , BID, junto com o alimento) e a ezetimiba para hipercolesterolemia (ex: ezetimiba 0,1 a 0,2 mg/kg ou 5 mg ou 10 mg/animal), além do tratamento específico da causa de base como as endocrinopatias1,5.

Considerações finais

A MB deve ser considerada no diagnóstico diferencial de cães, principalmente idosos, com sinais clínicos gastrointestinais e suspeita de alterações hepatobiliares.

A ultrassonografia abdominal é o exame de eleição para o diagnóstico.

O tratamento cirúrgico antes das manifestações clínicas é o mais indicado e com maiores chances de sucesso.

O manejo nutricional é fundamental em todos os casos.

Referências Bibliográficas

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