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Fatores que influenciam a ingestão de alimento em gatos hospitalizados

A ingestão alimentar adequada é um fator essencial para a recuperação de gatos hospitalizados. Entretanto, a inapetência é uma manifestação clínica frequente e multifatorial, que é influenciada por aspectos comportamentais, fisiopatológicos e ambientais.

Publicado em 21 de outubro, 2025

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O gato doméstico (Felis catus) descende do gato selvagem africano (Felis sylvestris lybica), um predador solitário e territorial, cuja evolução favoreceu comportamentos de autopreservação, como a ocultação de sintomas de dor ou doença, para evitar a atenção de possíveis predadores (1). Esse comportamento é um dos principais desafios no manejo dos gatos, visto que as manifestações clínicas tendem a ser sutis, a despeito da gravidade da doença (1).

Comer não é um ato social para os gatos, diferente do que é observado em outros animais, como cães, que caçam e comem em grupos. Para os representantes da espécie, a alimentação é um momento de vulnerabilidade, em que ele está exposto aos perigos ambientais e seus predadores e por isso, eles tendem a preferir se alimentar em ambientes tranquilos e considerados seguros, livre de ameaças ou interferências ambientais (1).

Estresse e insegurança no ambiente hospitalar

Ambientes hospitalares são essencialmente estressantes, devido à exposição a odores desconhecidos, presença de outros animais, manipulações frequentes, perda de controle sobre o território, entre diversos outros fatores (1). O estresse induz respostas fisiológicas que reduzem a ingestão alimentar e agravam os quadros de hiporexia e anorexia. A falta de esconderijos e a manipulação inadequada aumentam ainda mais essa resposta negativa (2).

As associações americana e europeia de medicina felina (Feline Veterinary Medical Association ou Feline VMA, antiga American Association of Feline Practitioners ou AAFP e a International Cat Care ou iCatCare, antiga International Society of Feline Medicine ou ISFM) recomendam a implementação de ambientes hospitalares amigáveis ao gato, não apenas com o objetivo de tornar a estadia dos pacientes menos estressante, mas que  a permanência no ambiente hospitalar seja associada a experiências positivas. Minimizar estímulos estressores, como sons, odores, manipulações excessivas, oferecer esconderijos e agradados e permitir ao gato maior controle sobre o espaço são algumas medidas com esse intuito (2). Além disso, procedimentos dolorosos próximos aos horários de alimentação podem criar associações negativas com o ato de comer (2).

Fatores fisiopatológicos que afetam a ingestão alimentar

À parte da questão ambiental mencionada, é importante considerar também as diversas condições clínicas comuns em gatos hospitalizados que contribuem para a redução da ingestão alimentar:

  • Náusea: Frequentemente associada a doenças gastrointestinais, renais, distúrbios eletrolíticos, desidratação ou efeitos colaterais de medicamentos. A náusea, mesmo sem vômito, é um potente inibidor do apetite (3). Oferecer comida forçadamente a pacientes nauseados, além de ser uma estratégia ineficaz de nutrição, resulta frequentemente em aversão ao alimento e retardo no reestabelecimento do apetite. (Figura 1)
  • Dor: doenças articulares degenerativas, pós-operatórios com analgesia mal controlada, doenças comuns como colangite e pancreatite e lesões orais, interferem diretamente no comportamento alimentar. São fundamentais o reconhecimento, avaliação e manejo adequados da dor, que é muitas vezes negligenciada ou subdiagnosticada, para promover a ingestão alimentar (3). (Figura 1)

Figura 1. Felino, SRD, 12 anos, com colangite neutrofílica, linfoma alimentar e doença articular degenerativa com sialorreia, indicativo de náusea e dor.

  • Lesões orais: Úlceras urêmicas, gengivoestomatite crônica felina e doenças periodontais graves provocam dor intensa e aversão ao alimento (3). (Figura 2)

Figura 2. Felino, Maine Coon, 5 anos de idade, com complexo gengivoestomatite crônica felina.

  • Estresse: Além da redução direta do apetite, o estresse crônico compromete a imunidade, prejudica a cicatrização e prolonga o tempo de recuperação (4).
  • Doenças gastrointestinais: hipomotilidade e constipação são comuns em gatos hospitalizados e agravam a inibição alimentar (3).
  • Distúrbios hidroeletrolíticos: a desidratação, a hipocalemia e a hiperfosfatemia são condições muito comuns em gatos internados e que contribuem para o mal-estar, hipomotilidade e náusea, e consequente falta de apetite. (Figura 3)

Figura 3. Felino, SRD, com hipocalemia, mostrando ventroflexão cervical.

Outros fatores que impactam a ingestão alimentar

Além dos aspectos já mencionados, outros fatores relevantes incluem:

  • Efeitos adversos de medicamentos: Fármacos como antibióticos, opioides, anti-inflamatórios e quimioterápicos podem induzir hiporexia ou anorexia, seja por efeitos colaterais ou pelo sabor amargo das formulações (3). Colocar medicações orais no alimento para a sua administração ou interromper atividades do paciente para medicá-lo são atitudes contraindicadas, pois promovem associações negativas com o alimento.
  • Familiaridade alimentar: Gatos são notoriamente neofóbicos. A oferta de dietas novas durante a hospitalização pode ser rejeitada, especialmente em situações de estresse, náusea e dor (2). Nesse ambiente, é recomendado oferecer alimentos conhecidos do paciente e a introdução de dietas específicas deve ser feita em casa, quando o apetite tiver sido restabelecido.

Consequências deletérias da inapetência em gatos hospitalizados

A inapetência prolongada tem impactos significativos sobre a saúde do gato. A espécie felina é especialmente intolerante ao jejum prolongado, uma vez que é carnívora estrita com alta demanda e baixa capacidade de preservação de proteínas (5). A restrição nutricional acarreta em uma séria de complicações, a exemplo de:

  • Lipidose hepática: Gatos mobilizam rapidamente gordura corporal para suprir demandas energéticas, predispondo à esteatose hepática, condição potencialmente fatal (5). (Figura 4)

Figura 4. Felino, SRD, 4 anos de idade, ictérica devido a lipidose hepática.

  • Comprometimento imunológico: A má nutrição reduz a eficácia imunológica, aumenta a suscetibilidade a infecções e prejudica a cicatrização de feridas (4-6).
  • Perda de massa muscular: A quebra proteica para manutenção da gliconeogênese promove perda muscular acelerada, prejudicando a recuperação e reduzindo a qualidade de vida (3).
  • Prolongamento do tempo de internação: A hiporexia ou anorexia prolongam o tempo de recuperação e a hospitalização, além de impactarem negativamente no bem-estar do animal (4).

A avaliação nutricional deve ser considerado o quinto sinal vital, ao lado da temperatura, pulso, respiração e dor (4). Estudos demonstram que gatos hospitalizados que mantêm ingestão alimentar adequada apresentam menor tempo de internação e melhor desfecho clínico (3).

Intervenções e manejo nutricional

O manejo da inapetência deve ser proativo. Um a vez que, caso o gato não estiver comendo seu requerimento energético basal, o veterinário deve intervir (4). Entre as abordagens recomendadas estão:

  • A promoção de ambiente amigável ao gatos (2)
  • Alimentação assistida: A instalação precoce de sondas alimentares deve ser considerada quando a ingestão espontânea for insuficiente após 2-3 dias, para prevenir lipidose hepática e perda de massa muscular (3). (Figura 5)

Figura 5. Felino, SRD, 7 anos, com fratura oral devido a trauma, e sonda nasoesofágica.

  • Suporte nutricional personalizado: A escolha da dieta deve considerar a palatabilidade, o estado clínico e a familiaridade do alimento. Sempre que possível, deve-se oferecer o alimento habitual do gato (3).
  • O uso criterioso de estimulantes de apetite: como a mirtazapina e a capromorelina (3, 5). Entretanto, é fundamental garantir a adequada e eficaz abordagem da náusea, dor e distúrbios hidroeletrolíticos antes do uso dessas medicações.

Considerações finais

A ingestão alimentar em gatos hospitalizados é influenciada por uma complexa interação entre fatores comportamentais, fisiológicos e ambientais. O manejo eficaz da inapetência é essencial para otimizar a recuperação clínica, reduzir o tempo de hospitalização e preservar a qualidade de vida dos pacientes felinos.

Referências Bibliográficas

  • 1. AAFP/ISFM. Cat Friendly Veterinary Environment Guidelines. J Feline Med Surg. 2022;24:1133-1163.

  • 2. AAFP/ISFM. Cat Friendly Veterinary Interaction Guidelines. J Feline Med Surg. 2022;24:1093-1132.

  • 3. ISFM. Consensus Guidelines on Management of the Inappetent Hospitalised Cat. J Feline Med Surg. 2022;24:614–640.

  • 4. Taylor S et al. Inappetence in cats: the fifth vital assessment. J Feline Med Surg. 2022;24:613.

  • 5. Agnew W, Korman R. Pharmacological appetite stimulation: Rational choices in the inappetent cat. J Feline Med Surg. 2014;16:749-756.

  • 6. Freitag KA, Saker KE, Thomas E, Kalnitsky J. Acute starvation and subsequent refeeding affect lymphocyte subsets and proliferation in cats. J Nutr. 2000 Oct;130(10):2444-9. doi: 10.1093/jn/130.10.2444. PMID: 11015470.

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