Como realizar a avaliação nutricional de cães e gatos
A avaliação nutricional de cães e gatos é considerada o quinto parâmetro vital. Saiba como inclui-la na sua rotina de atendimentos.
Recomendado para você
Escrito por
Introdução
A nutrição de cães e gatos evoluiu de forma expressiva nas últimas décadas, acompanhando tendências da nutrição humana. Atualmente, a alimentação desses animais não se restringe à manutenção da vida, mas visa promover saúde, bem-estar e longevidade (de Godoy et al., 2013). Para que esses objetivos sejam alcançados, a avaliação nutricional sistemática durante a consulta clínica deve ser considerada parte essencial do plano de saúde, com impacto direto na prevenção e no manejo de enfermidades como diabetes melito, doença renal crônica e osteoartrite.
Desde 2011, a Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA) estabeleceu diretrizes que normatizam o atendimento nutricional, tornando as recomendações mais eficientes e aplicáveis à rotina clínica (WSAVA, 2011). Essas diretrizes introduziram a avaliação nutricional como o “quinto sinal vital”, enfatizando a importância do rastreio rápido e das reavaliações periódicas ao longo da vida do paciente. A adoção de protocolos padronizados por toda a equipe clínica favorece a uniformidade no atendimento, otimiza o manejo nutricional e contribui para a prevenção e o controle de doenças.
1. Anamnese nutricional padronizada
Um protocolo escrito e estruturado deve ser utilizado pela equipe clínica, permitindo treinamento adequado e maior precisão nos atendimentos. A anamnese nutricional deve ir além da simples pergunta “qual ração o animal consome?”.
O questionamento deve contemplar:
- tipo de dieta (comercial seca, úmida, caseira, mista);
- consistência e apresentação do alimento;
- quantidade oferecida (em gramas);
- frequência alimentar;
- suplementação;
- responsável pela oferta;
- presença de outros animais na residência;
- manejo alimentar (livre demanda, horário fixo, enriquecimento ambiental);
- ingestão de petiscos e alimentos extras.
É fundamental que cada clínica desenvolva protocolos adaptados à sua realidade e ao perfil dos pacientes atendidos. No entanto, as diretrizes da WSAVA oferecem um guia estruturado que pode servir como base para essa padronização. Uma estratégia prática consiste em disponibilizar previamente ao tutor um questionário nutricional padronizado, permitindo que as respostas sejam fornecidas com mais calma e riqueza de detalhes, facilitando a validação das informações durante a consulta.
2. Avaliação física complementar
Além da anamnese nutricional, devem ser mensurados e registrados:
- peso corporal;
- escore de condição corporal (ECC, escala 1–9) (Laflamme, 1997);
- escore de massa muscular (EMM, escala 0–3) (Baldwin et al., 2010);
- variações recentes de peso;
- nível de atividade física;
- escore fecal (escala 1–5) (Carciofi et al., 2008).
A adição de campos obrigatórios para ECC e EMM no prontuário facilitam a padronização do acompanhamento.
A plataforma PremieRvet® disponibiliza Materiais de Apoio como lâminas de ECC e EMM. Acesse aqui e baixe conteúdos exclusivos para médicos-veterinários formados e em formação.
3. Cálculo da necessidade energética do paciente
Ao dispor de todas as informações da anamnese e da condição corporal do paciente é possível determinar a necessidade energética em quilocalorias necessárias para a manutenção do animal, independente da condição clínica.
Dessa forma, existem algumas fórmulas matemáticas que podem auxiliar no direcionamento desses cálculos.
Com base nas informações coletadas, é possível estimar a necessidade energética de manutenção (NEM) do paciente (quilocalorias por dia), independentemente da condição clínica. Existem diversas fórmulas de predição, alguns exemplos são:
- Cães ativos/canis: 130 kcal x (PC kg)0,75/dia;
- Cães jovens ativos: 140 kcal x (PC kg)0,75/dia;
- Cães domiciliados inativos: 95 kcal x (PC kg)0,75/dia;
- Gatos em condição corporal adequada: 100 kcal x (PC kg)0,67/dia;
- Gatos obesos, castrados e sedentários: 52-75 kcal x (PC kg)0,67/dia.
4. Escolha da dieta e rótulo
Um alimento é considerado “completo e balanceado” quando fornece todos os nutrientes essenciais em concentrações adequadas para a espécie, estágio de vida e condição clínica. Dessa forma, além do valor energético, a composição nutricional deve ser cuidadosamente avaliada.
O cálculo da quantidade em gramas a ser oferecida ao animal deve considerar a energia metabolizável (EM) informada no rótulo:
g/dia = necessidade energética do animal (kcal/dia) / energia metabolizável do alimento (kcal/g)
Importante destacar a regra dos 10% de calorias “não completas” (petiscos e restos de comida), pois acima de 10% da energia diária diluem nutrientes e favorecem ganho de peso.
5. Comunicação que gera adesão
A adesão do tutor ao plano nutricional depende de comunicação clara, empática e assertiva. É fundamental que ele compreenda cada etapa do manejo alimentar, concorde com as recomendações e participe ativamente do processo.
Fornecer alternativas de manejo — horários, formas de enriquecimento ambiental, opções de alimentos e petiscos — aumenta o engajamento. Recomenda-se disponibilizar um plano escrito com metas, quantidade em gramas, número de refeições, limite de petiscos e critérios de acompanhamento.
6. Monitoramento
Em casos de animais adultos saudáveis, inicialmente as reavaliações podem ser realizadas de forma mensal, até a estabilização do peso/ECC/EMM, após este período é possível realizar reavaliações a cada 3–6 meses. No entanto, em condições clínicas alteradas, é necessário acompanhar a enfermidade em questão. Em alguns casos é possível um acompanhamento a cada dois meses, no entanto, em outras doenças, o atendimento semanal se faz necessário.
7. Pacientes hospitalizados
Em regime de internação, deve-se registrar ordens nutricionais diárias, incluindo cálculo de necessidades energéticas, alimento(s) autorizado(s), quantidade, frequência e via de administração. Reavaliações devem ser feitas diariamente, acompanhando a evolução clínica.
8. Como operacionalizar na clínica (passo a passo)
- Protocolos escritos: inclua um checklist no fluxo de triagem da equipe.
- Ferramentas visuais: fixe pôsteres de ECC e EMM na sala de atendimento e forneça folders impressos no consultório.
- Formulários: adicione a anamnese nutricional ao prontuário com envio antecipado ao tutor/responsável.
- Padronize porções em gramas e forneça balança ou tabela de conversão.
- Mensagem única da equipe: treinamento de toda equipe para reforçar o plano nutricional e a regra dos 10% de calorias “não completas”.
A PremieRvet® possui ferramentas que apoiam a avaliação nutricional. Conte com uma calculadora nutricional para cálculos rápidos e precisos e gere orientações nutricionais completas e personalizadas para os seus pacientes.
Referências Bibliográficas
Baldwin, ; Bartges, J.; Buffington, T.; Freeman, L.M.; Grabow, M.; Legred, J.; Ostwald, D. AAHA Nutritional Assessment Guidelines for Dogs and Cats. J. Am. Anim. Hosp. Assoc. 2010, 46, 285–296. https://doi.org/10.5326/0460285.
Carciofi AC, Takakura FS, De-Oliveira LD, Teshima E, Jeremias JT, Brunetto MA, et al. Effects of six carbohydrate sources on dog diet digestibility and postprandial glucose and insulin response. Journal of Animal Physiology and Animal Nutrition. 2008; 98: 326–336.
Cline M.G., Burns K.M., Coe J.B., Downing R., Durzi T., Murphy M., Parker V. AAHA Nutrition and Weight Management Guidelines for Dogs and Cats. Journal of the American Animal Hospital Association, v. 57, n. 4, p. 153-178, 2021.
de Godoy M.R., Kerr K.R., Fahey G.C. Jr. Alternative dietary fiber sources in companion animal nutrition. Nutrients. 2013 Aug 6;5(8):3099-117. doi: 10.3390/nu5083099. PMID: 23925042; PMCID: PMC3775244.
Fascetti A.J.; Delaney S.J.; Larsen J.A.; Villaverde C. Applied veterinary clinical nutrition. 2th edition, John Wiley & Sons, Inc., 2024.
FEDIAF—Fédération Européenne de L’industrie des Aliments pour Animaux Familiers. The European Pet Food Industry Federation. Nutritional Guidelines. 2024.
Laflamme, Development and Validation of a Body Condition Score System for Dogs: A Clinical Tool. Feline Pract. 1997, 25, 13–18.
World Small Animal Veterinary Association (WSAVA). Global Nutrition Guidelines, 2011. Acedido em 27.08.2025. Disponível em: https://wsava.org/wp-content/uploads/2020/01/WSAVA-Nutrition-Assessment-Guidelines-2011-JSAP.pdf



