Buscar

10 passos para a desobstrução uretral em gatos

Saiba mais sobre os 10 passos para a desobstrução uretral, promovendo a restauração do fluxo normal e a correção de anormalidades bioquímicas e clínicas associadas à retenção urinária em gatos.

Publicado em 28 de novembro, 2025

A obstrução uretral em gatos é uma emergência urológica grave e que pode ser fatal caso o fluxo urinário não seja restaurado entre 24 e 48 horas. Os gatos apresentam a vesícula urinária distendida com dimensões variadas, na dependência do volume urinário retido (TAYLOR et al., 2025).

As causas mais comuns são os urólitos e os tampões uretrais (mucoproteínas e/ou cristais, coágulos, restos teciduais, corpo estranho); como também disfunção uretral (espasmos uretrais), vesical (atonia do detrusor), neoplasias e estenose (Figura 1). Tal interrupção leva a um efeito prejudicial sobre a função renal, à dor, aos distúrbios hidroeletrolíticos e metabólicos, fazendo com que as condutas terapêuticas sejam de caráter emergencial (SOUZA et al., 2023).

Assim, é importante elencar os 10 passos para a desobstrução uretral, promovendo a restauração do fluxo normal e a correção de anormalidades bioquímicas e clínicas associadas à retenção urinária em gatos (BREHENY et al., 2022 a & b).

1o) Buscar a relevância clínica – EMERGÊNCIA UROLÓGICA
2o) Dimensionar a gravidade da obstrução uretral
3o) Identificar tempo de obstrução
4o) Monitorar hemograma / bioquímica sérica / hemogasometria
5o) Associar exames de imagem
6o) Conferir o fluxo urinário
7o) Correção da desidratação e equilíbrio hidroeletrolítico
8o) Manejo adequado na cateterização uretral / analgesia e anestesia
9o) Permanência da sonda de espera de polivinil
10o) Abordagem cirúrgica

Fonte: Justen, 2025.

Figura 1: Obstrução uretral intramural em gato macho. A. Notar o tampão uretral formado por mucoproteínas expelido da uretra peniana. B. Observar a palpação da vesícula urinária que se encontra repleta e bastante distendida. Fonte: Justen, 2025.

Os três primeiros passos na desobstrução uretral são abordados através do histórico e os sinais clínicos de gatos obstruídos dependem da duração da doença e do grau da obstrução uretral. De um modo geral, os responsáveis dos felinos que apresentam obstrução uretral parcial relatam que o gato inicialmente demonstra várias tentativas para urinar com emissão de pouca urina (em gotas) e com coloração avermelhada (BREHENY et al., 2022 b).

No exame clínico, evidencia-se o pênis hiperêmico e edemaciado. À palpação observa-se uma vesícula urinária distendida, o que gera desconforto ao animal. Na obstrução parcial, nota-se o fluxo urinário com pequeno diâmetro após a compressão da bexiga. Quando a uropatia obstrutiva é total, o gato não permite o exame clínico demonstrando dor grave e ausência de fluxo urinário. Deve-se tomar cuidado com a pressão exercida sobre a bexiga em virtude da fragilidade da musculatura podendo ocorrer a sua ruptura. A avaliação da resposta ao estímulo do pinçamento da cauda e a inspeção da tonicidade do esfíncter anal são importantes para a detecção de déficits neurológicos concomitantes.

A urina retida na bexiga ocasiona uma pressão retrógrada aos ureteres e aos rins. Caso os animais permaneçam obstruídos por 24 a 36 horas, aparecerão sinais clínicos de azotemia pós-renal como vômito, anorexia, depressão, desidratação, hipotermia e até colapso. Fraqueza generalizada, arritmia cardíaca, e/ou bradicardia indicam uma obstrução de longa duração em função da hipercalemia. A morte pode ocorrer de três a seis dias após o início da obstrução.

O quarto passo contempla os exames laboratoriais que são fundamentais para escolha da conduta terapêutica adequada dos gatos obstruídos. A cultura de urina deve ser realizada quando a urinálise for indicativa de piúria e/ou bacteriúria, além da hematúria. Preferencialmente, a urina deve ser colhida por cistocentese. A avaliação da filtração renal, através da mensuração dos níveis séricos de uréia e creatinina é indicada nos gatos obstruídos, assim como o perfil eletrolítico principalmente de potássio, fósforo e cálcio ionizado. A retenção de fósforo secundária à obstrução uretral induz a hipocalcemia devido à ligação do fósforo ao cálcio ionizado. A hipocalcemia acentua as alterações cardíacas causadas pela hipercalemia (LEE, DROBATZ, 2003).

No quinto passo, as avalições radiograficas abdominais laterais simples podem comprovar a existência de cálculos radiopacos na uretra, como também, na vesícula urinária ou nos rins. O estudo radiológico contrastado é efetivo na identificação de cálculos radiolucentes, ruptura uretral ou vesical, estenose uretral, divertículo uracal, neoplasias e processos inflamatórios. A técnica radiológica contrastada empregada em felinos frequentemente é o uretrocistograma retrógrado de contraste positivo para determinar os possíveis sítios de obstrução uretral.

O sexto passo visa conferir se a obstrução é parcial ou total. Para tanto, o felino deve ser anestesiado com uma boa analgesia para verificar o fluxo urinário fazendo uma leve compressão da vesícula urinária. A contenção farmacológica associada ao bloqueio do nervo pudendo ou anestesia epidural sacrococcígea com anestésico local pode ser adequada para gatos que são particularmente dóceis ou que estão gravemente deprimidos. A analgesia deverá ser realizada imediatamente pois trará conforto e melhora no quadro clínico do gato obstruído.

No sétimo passo, busca-se o tratamento da obstrução uretral que consiste principalmente em estabilizar o paciente, encontrar a causa do quadro e realizar a desobstrução. Os gatos obstruídos em geral apresentam-se desidratados, hipovolêmicos e hipotérmicos. Nesse sentido, a fluidoterapia é um procedimento fundamental a ser realizado em gatos urêmicos, pois tem a capacidade de corrigir os desequilíbrios eletrolíticos mencionados e outros como a hipercalemia, azotemia e acidose. O aquecimento deve ser realizado com colchão térmico, bolsas de água quente ou fluidos intravenosos mornos (60 a 100ml). É fundamental que esforços sejam realizados a fim de manter o animal normotérmico (37,8°C a 39,2°C), observando para que a temperatura não se eleve abruptamente. A hipercalemia é observada em gatos com obstrução uretral completa moderada a grave. A administração de gluconato de cálcio por via intravenosa de forma lenta fornece proteção de curto prazo contra os efeitos deletérios do potássio no coração (bradicardia e arritmia). Uma vez que o fluxo de urina é restaurado e a função renal retorna, os níveis de potássio sérico podem cair drasticamente e os gatos frequentemente ficam hipocalêmicos. Esse desequilíbrio pode ser corrigido adicionando cloreto de potássio nos fluidos intravenosos (BREHENY et al., 2022 c).

O oitavo e nono passos visam o manejo do gato obstruído irá depender das condições clínicas do paciente no momento que ele é recebido no atendimento, seguindo um critério de prioridade. Os procedimentos recomendados na tentativa de restauração do lúmen uretral patente em um gato macho obstruído seguem uma ordem de prioridade que são:

  1. Massagem uretral distal e massagem da uretra por via retal;
  2. Tentativas de indução de micção pela suave palpação da bexiga;
  3. Cistocentese descompressiva;
  4. Cateterização da uretra com cateter lubrificado com diâmetro menor ou igual a 3,5 French e desobstrução do lúmen uretral por hidropropulsão retrógrada com soro fisiológico;
  5. Combinações de 1 a 4;
  6. Estudo radiográfico e ultrassonográfico para determinar a causa da obstrução uretral: intraluminal, mural e/ou extramural;
  7. Procedimentos cirúrgicos (Figura 2).

(SEGEV et al., 2011; HALL et al., 2015; BREHENY et al., 2022 b).

Figura 2: Técnica de desobstrução uretral por hidropropulsão retrógrada em um gato macho pré medicado com midazolan e metadona e indução anestésica com propofol. A. Exteriorização do pênis com os dedos polegares pressionando o saco escrotal e o prepúcio. B. Introdução de um cateter intravenoso periférico de poliuretano calibre 22G na uretra peniana, com o corpo do pênis posicionado entre os dedos polegar e indicador. C. Introdução de solução salina estéril (5-10mL/kg) injetada através do cateter com auxílio de uma válvula de três vias que se encontra conectada no equipo de soro e na seringa de 10ml, com intuito de dissolver o material obstrutor. Se possível, realizar ultrassom da bexiga para observar sedimentos. D. Urohidropropulsão miccional. Notar a compressão manual da vesícula urinária com o gato erguido, membros torácicos levemente inclinados para cima e voltados para o chão. Observar fluxo urinário com diâmetro normal após a desobstrução (COOPER et al., 2015). Fonte: Justen, 2025.

O décimo passo é a indicação cirúrgica. A uretrostomia perineal é indicada para prevenir a recorrência da obstrução uretral em gatos machos não responsivos ao tratamento clínico, cuja taxa de recidiva da obstrução é em torno de 35 a 50%, ocorrendo num período inferior a seis meses; e nas obstruções da uretra peniana que não podem ser corrigidas pelas manobras clínicas (Figura 3) (SENEVIRATNE et al., 2021)

As complicações mais frequentes inerentes às técnicas de uretrostomias são as estenoses uretrais e as infecções urinárias bacterianas recorrentes.

Figura 3: Obstrução uretral mural em gato macho submetido a uretrostomia perineal. A. Radiografia abdominal lateral com uretrograma retrógrado com contraste positivo. Notar a presença da estenose no lúmen da uretra peniana. B- Observar a lesão mural grave na uretra distal após várias tentativas de cateterizações. C- Verificar a finalização da técnica de uretrostomia perineal com a criação do novo estoma uretral com o emprego da sutura mucocutânea com pontos simples e fio de náilon número 4-0. Fonte: Justen, 2025.

Tags

Referências Bibliográficas

  • 1.Taylor S, Boysen S, Buffington T, et al. 2025 iCatCare consensus guidelines on the diagnosis and management of lower urinary tract diseases in cats. J Feline Med Surg. 2025; 27(2):1-36.

  • 2.Souza HJM, Castro SM, Corgozinho KB. Desobstrução uretral. In: Costa FVA, Martins CS (org) Manual de clínica médica felina. 1. ed. Barueri, SP: Manole, 2023, cap 106, p. 749-756.

  • 3.Breheny C, Blacklock KB, Gunn-moore D. Approach to urethral obstruction in cats. part 1: presentation and stabilisation. In Practice. 2022a; 44 (7):372-382.

  • 4.Breheny C, Blacklock KB, Gunn-moore D Approach to urethral obstruction in cats. Part 2: catheterising and postobstruction management. In Practice. 2022b; 44 (8):452-464.

  • 5.Lee JA, Drobatz KJ. Characterization of the clinical characteristics, electrolytes, acid–base, and renal parameters in male cats with urethral obstruction. J Vet Emerg Crit Care. 2003;13(4):227–33.

  • 6.Breheny C, Blacklock KB, Gunn-moore D. Approach to urethral obstruction in cats. Part 3: addressing underlying concerns and preventing recurrence. In Practice. 2022c; 44 (9): 500-511.

  • 7.Segev G, Livne H, Ranen E, Lavy E. Urethral obstruction in cats: Predisposing factors, clinical, clinicopathological characteristics and prognosis. J Feline Med Surg. 2011;13(2):101–8.

  • 8. Hall J, Hall K, Powell LL, Lulich J. Outcome of male cats managed for urethral obstruction with decompressive cystocentesis and urinary catheterization: 47 cats (2009-2012). J Vet Emerg Crit Care. 2015;25(2):256–62.

  • 9.Cooper ES. Controversies in the management of feline urethral obstruction. J Vet Emerg Crit Care. 2015;25(1):130–7.

  • 10.Seneviratne M, Stamenova P, Lee K. Comparison of surgical indications and short- and long-term complications in 56 cats undergoing perineal, transpelvic or prepubic urethrostomy. J Feline Med Surg. 2021;23(6):477–86.

Leia mais sobre Nefrologia e Urologia