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Vermifugação preventiva de cães e gatos: devemos ou não fazer?

Entenda as recomendações atuais sobre vermifugação preventiva de cães e gatos na rotina clínica veterinária.

Publicado em 08 de maio, 2026
Vermifugação preventiva de cães e gatos.

Escrito por

C

Cintia Ghorayeb

Médica-veterinária especializada em clínica médica de cães e pacientes críticos

Introdução

Muito se fala sobre vermifugação preventiva e regular dos pets de companhia, mas será que ela é benéfica para a saúde deles, ou estamos apenas provocando resistência a bons fármacos, invalidando seu uso a longo prazo?

Quando entramos no assunto de endoparasitoses de cães e gatos, é importante olharmos para o aspecto de Saúde Única – onde o ambiente em que este animal está inserido, o tipo de vida que ele leva, a importância dele na família e os tipos de contactantes – animais e familiares – aos quais ele é exposto fazem toda a diferença para a definição dos protocolos recomendados.

Impacto das verminoses na Saúde Única

Considerando que alguns parasitas gastrointestinais são de interesse sob a perspectiva da Saúde Única devido à sua relevância para a clínica médica veterinária e humana, o íntimo contato entre o homem e animais domésticos, que muitas vezes são vistos como membros da família, favorece a transmissão zoonótica. Nesse contexto, é particularmente importante investigar a ocorrência de parasitas em cães domiciliados (Reginaldo et al., 2025).

No Brasil, os autores relatam que a prevalência de larvas de Toxocara spp. em cães variou entre 0,7% a 48,9%, e em gatos 0,3% a 43,1% (Dantas-Torres, 2020; Macpherson, 2013).

Investigações recentes sobre a distribuição de Ancylostoma spp. em cães domiciliados e em áreas rurais de SP, ES e MG, documentaram de 10 a 61% de presença de ovos nas fezes, sendo considerado o nematódeo mais prevalente em pets e seres humanos no Brasil (dos Santos et al., 2020).

Em outro estudo brasileiro sobre a prevalência em filhotes de até 6 meses, com vermes e protozoários, foram analisadas amostras de 100 animais, sendo que 34% dos cães apresentaram resultado positivo para Toxocara spp., 28% para Cystoisospora spp., 22% para a família Ancylostomatidae e 8% para Giardia spp.. Em 21% dos animais, foram detectadas infecções mistas (Reginaldo et al., 2025).

Verminose em filhote de cão.

Ancylostoma sp. eliminado espontaneamente por filhote de cão (Ghorayeb C., 2026).

Verminose em filhote de cão.

Toxocara canis eliminado espontaneamente por filhote de cão (Ghorayeb C., 2026).

Essa realidade é vista na nossa rotina de atendimento de filhotes, com um agravante sobre a resistência dos antiparasitários mais comuns do mercado.

Há algum tempo atrás, conseguíamos negativar nosso paciente em um ou dois ciclos de vermifugação, usando simples anti-helmínticos e antiprotozoários. Hoje em dia, já precisamos de alguns meses de tratamento, passando por alguns fármacos, antes de conseguir estabilizar um filhote.

Sob o ponto de vista da saúde pública, o Brasil é o líder em números de casos de doenças parasitárias em toda a América. Quase 12 milhões de crianças em idade escolar apresentam vermes nematódeos intestinais; no entanto, de acordo com a OMS, apenas 15% recebem anti-helmínticos regularmente  (Dantas-Torres, 2020; Hotez & Fujiwara, 2014; Rostami et al., 2020).

Nos locais onde a população é mais pobre, não sobra dinheiro para vermifugar as crianças, tão pouco os animais, que mal frequentam médicos-veterinários. Esses pets, muitas vezes, são de vida livre, sem responsáveis e sem qualquer tipo de tratamento para verminoses sabidamente adquiridas, seja por via transmamária ou por frequentarem ambientes contaminados. Tais animais também são grandes vetores de contaminação, por defecarem em qualquer ambiente que lhes seja acessível.

Estudos recentes da Fiocruz demonstram que a contaminação de ovos e parasitas em ambientes públicos como praças, praias e parques ultrapassam 90% em todo o Brasil.

Prevenção e controle das doenças parasitárias

A conscientização de responsáveis para a necessidade de recolhimento de fezes dos ambientes públicos é essencial, assim como evitar o hábito de levar animais para parquinhos infantis, praias e praças públicas. O médico-veterinário participa ativamente das orientações para bom convívio societário das famílias interespécies (Dantas-Torres, 2020; Macpherson, 2013; Rostami et al., 2020)

Hábitos de higiene frequentes, como lavar as mãos e não consumir alimentos crus ou mal lavados, são importantes ações para o controle de doenças parasitárias (Macpherson, 2013; Rostami et al., 2020).

Além disso, o controle populacional de animais livres, com esterilização, deve estar no programa de controle ambiental, a fim de diminuir a presença de animais abandonados que defecam em locais públicos (Dantas-Torres, 2020; Macpherson, 2013).

Protocolos de vermifugação em cães e gatos

O uso de medicamentos com alta frequência (mensalmente ou a cada 3 meses, por exemplo) em cães e gatos, sem triagem diagnóstica, não os impede de serem infectados quando são expostos a ambientes contaminados.

Os anti-helmínticos são rapidamente absorvidos e eliminados do corpo do paciente. O febantel, por exemplo, pode ser metabolizado em torno de 2 a 8 h após a ingestão. Já o pamoato de pirantel é absorvido e eliminado em 24 h do corpo do cão. Estes exemplos, assim como muitos outros medicamentos, não são considerados fármacos de ação preventiva, e sim usados como tratamento de animais com infecção ativa e sintomática.

O uso de protocolos ineficientes, prática comum em criadores não fiscalizados, muitas vezes com princípios ativos diferentes a cada administração de dose semanal de antiparasitários para eliminação de endoparasitoses em filhotes, tem elevado a resistência aos tratamentos destes pets ao chegarem aos seus novos lares.

Verminoses em cães e gatos: diagnóstico e tratamento

A triagem de parasitas gastrointestinais orienta as opções de tratamento e a adoção de práticas de manejo ambiental para o controle correto da infecção (Reginaldo et al., 2025).

Filhotes recém-nascidos e cães jovens são as categorias mais suscetíveis, infectados por transmissão transmamária. Após um período de grande suscetibilidade, que coincide com o amadurecimento de uma resposta imune eficiente ao parasitismo, cães jovens, adultos e idosos podem se tornar cronicamente infectados e assintomáticos (dos Santos et al., 2020).

Para um adequado controle parasitário, recomenda-se a vermifugação de filhotes e matrizes lactantes a partir de 15 dias de ninhada nascida, e a escolha do protocolo dependerá do risco e exposição do animal. É importante que seja feita a desinfecção ambiental concomitante ao protocolo oral dos pacientes (Macpherson, 2013).

Para controle de indivíduos adultos, não se descarta a realização da triagem diagnóstica, com parasitológicos de fezes seriados – pelo menos três amostras de fezes em dias alternados – e a Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) para parasitas intestinais, individualizando o tratamento conforme o agente encontrado.

Indivíduos que frequentam ambientes sabidamente contaminados, imunossuprimidos, ou que estão em íntimo convívio com pessoas imunossuprimidas, podem ser vermifugados com maior frequência, devendo ser monitorados com exames diagnósticos rotineiramente.

Os indivíduos com sinais gastrointestinais agudos devem ser triados com exames diagnósticos, parasitológicos de fezes seriados, PCR para doenças intestinais, exames de imagem e exames bioquímicos para o diagnóstico e tratamento específico.

Conclusão

A responsabilidade é de todos nós, médicos-veterinários e sociedade, para que possamos obter o melhor controle de saúde pública e Saúde Única no que diz respeito a verminoses e vermifugação de cães e gatos.

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